Mapeamento das comunidades ciganas: cidade e concelho de Beja

Em 2017 foi efectuado pela pela AMEC – Associação de Mediadores Ciganos de Portugal, em parceria com o Núcleo Distrital de Beja da EAPN Portugal/Rede Europeia Anti-Pobreza, com apoio da rede social local, Câmara Municipal de Beja, e do jornal Público, um primeiro levantamento dos residentes de etnia cigana ao nível da cidade e do concelho de Beja. Serviu de ensaio ao mapeamento das comunidades ciganas do distrito de Beja que empreendemos no ano seguinte: ambos os estudos seguiram uma metodologia de recenseamento quantitativo assente num trabalho no terreno muito exaustivo, realizado “família por família”, e o registo fotográfico das habitações para comprovar as condições de vida da comunidade cigana. Os números e as fotos falam por si:


(“Fotos que falam”)

 


A reportagem do jornalista Carlos Dias, que acompanhou os trabalhos porta a porta, foi publicada do jornal Público, em 17 de Abril de 2017 com o título Beja acolhe o dobro dos ciganos referenciados em estudos oficiais:

Maioria reside em habitações sociais, mas um número razoável de agregados construiu a sua própria casa em alvenaria, e só algumas famílias vivem em barracas ou tendas.

Os dados oficiais expressos no Estudo Nacional sobre as Comunidades Ciganas, divulgado em Junho de 2015 pelo Alto Comissariado para as Migrações (ACM) referem que, em 2014, viviam no concelho de Beja 630 ciganos. No entanto, este número está longe de corresponder à situação presente. Com efeito, um novo recenseamento proposto pela Rede Europeia Antipobreza (EAPN) e Associação de Mediadores Ciganos de Portugal (AMEC) à Câmara de Beja, defendendo a contagem directa nos lugares onde residem, revelou resultados surpreendentes: o total de ciganos do concelho ascende a 1106 indivíduos, praticamente o dobro dos que foram referenciados oficialmente.

O levantamento realizado pelo ACM foi, no essencial, baseado na informação recolhida pelas autarquias a nível nacional, acreditando-se que estas seriam as entidades em melhores condições para fornecer os dados necessários à caracterização das comunidades ciganas. O estudo justifica a opção por três ordens de razões: “primeiro, e teoricamente, poder-se-ia recobrir todo o território nacional. Em segundo lugar, evitar-se-iam sobreposições, isto é, o problema de uma ‘comunidade’ ser referida mais do que uma vez sob nomes diferentes. Terceiro: partindo do princípio de que os técnicos municipais possuem uma delimitação geográfica rigorosa das fronteiras administrativas, poder-se-ia obter dados fiáveis a nível de freguesia e bairro. Esta seria uma primeira aproximação à localização e dimensão da população cigana em território nacional”.

Não parece que tenha resultado. E os investigadores que elaboram o estudo nacional constatam que “de alguma forma estas fontes (autarquias) enviesam os resultados, pois tendem a não abranger ciganos que não beneficiem de apoios sociais ou não residam em habitação camarária ou social”. Assim sendo, os números que se apresentam são “uma subestimação em relação ao número de pessoas ciganas residentes no território nacional”.

Colocar um ponto final na indefinição quanto ao número de ciganos residentes no concelho de Beja impunha ir aos locais onde residem as famílias ciganas. Foi o que pensaram Anselmo Prudêncio, técnico do núcleo distrital de Beja da EAPN, e Prudêncio Canhoto, mediador cigano na Câmara de Beja e presidente da Associação de Mediadores Ciganos de Portugal (AMEC). A Câmara de Beja aceitou colaborar numa experiência que lhe poderia facultar elementos importantes de análise das comunidades residentes na área do município.

O PÚBLICO acompanhou a equipa de “recenseadores” no seu roteiro pelas freguesias rurais, que começou na Cabeça Gorda. Numa nesga de terreno junto a um perímetro florestal, foram conferidos os agregados de seis famílias ciganas que ainda habitavam em barracas cobertas de lona e de plástico. “Quantos são vocês aqui?”, perguntou Anselmo Prudêncio. Toy, o porta-voz da comunidade, pediu ajuda para contar os adultos, jovens e crianças que se juntaram em redor do técnico da EAPN, enquanto Prudêncio Canhoto ia apontado num bloco de notas as informações sobre 18 pessoas que viviam no acampamento.

Feito o levantamento, seguiram-se as descrições sobre as dificuldades que sentiam. Não tinham acesso a água, que iam buscar a quilómetros de distância. Pediam um “terrenito” para construir umas barracas, próximo de um ponto de água e ainda que lhes dessem acesso aos balneários públicos para tomar banho.

(…)Um deles pediu a uma vizinha que não faz parte da comunidade cigana se o autorizava a instalar uma pequena horta num terreno ermo, com entulho e lixo. A autorização foi dada e hoje pode observar-se um espaço verdejante com ervas de cheiro, couves, árvores de fruto e flores. “Isto estava uma morraça”, refere orgulhoso Prudêncio Canhoto, que vive na freguesia. “Há uma dúzia de anos éramos apenas 20. Agora somos 16 famílias com 80 pessoas.”

Seguiu-se no roteiro a freguesia de Quintos. Apenas uma única família, a de Jorge Padeiro, com oito membros, vive no local. Atende a matriarca, em simultâneo mãe e avó. Formam o agregado sete pessoas, mas em breve serão oito “com mais uma moça. “Para o ano, se vier aqui, a família está maior”, antevê a mulher de Jorge Padeiro.

O mediador cigano conduz o PÚBLICO a um espaço que já foi recreio da escola primária de Quintos que agora está fechada por falta de crianças. Esta família, diz, “cortou as ervas daninhas e no recinto, que já foi o recreio da escola, mesmo em frente da sua residência alugada, colocou o tanque para lavar a roupa”. “O asseio até na estrumeira fica bem”, comenta Prudêncio Canhoto, que não perde a oportunidade para realçar as qualidades da etnia de que faz parte.

Em Baleizão foram contadas quatro famílias e 12 pessoas no total. “Falta o ‘Tifa’, que anda na apanha do morango.” Cortaram a água à família Inocêncio por não ter dinheiro para a pagar, mas a matriarca da família acrescenta que a “casinha” onde vive foi comprada pelo marido, quando era vivo. Recuperaram-na e vivem integrados junto da comunidade não cigana sem que se registem conflitos.

Na Vila Azedo uma pequena povoação de onde se avista o casario de Beja, sobretudo a soberba torre do seu castelo, residem os oito elementos da família Soares, que também comprou uma casa arruinada e que hoje “está uma maravilha”. Seguiu-se São Matias e a numerosa família de Rui Manano, que se ramificou por várias comunidades no Baixo Alentejo. Neste caso, são oito pessoas a viver numa casa com água e luz, “um privilégio”, diz orgulhoso.

O percurso pelas comunidades ciganas pelas freguesias rurais terminou na localidade de Trigaches, onde, num terreno com cerca de meio hectare, comprado por João Sanches “quando trabalhava nas pedreiras”, vivem numa casa de alvenaria e quatro barracas cinco famílias e 25 pessoas. Não têm saneamento, nem sequer casa de banho. João Sanches plantou árvores, marmeleiros e oliveiras, na pequena horta, juntamente com ervas de cheiro (coentros, salsa e hortelã). “As ‘barraquitas’ em tijolo fui eu que as fiz”, assinala este homem que já vai a caminho dos 70 anos.

No dia seguinte a recolha de dados prosseguiu na cidade de Beja. A informação coligida revelou um aumento exponencial de ciganos no concelho de Beja, onde vivem 24 comunidades (13 nas freguesias rurais e 11 na sede do concelho), e 197 famílias (58 nas freguesias rurais e 139 na sede do concelho). No total, são 1106 pessoas (325 nas freguesias rurais e 781 na sede do concelho).

Vítor Picado, vice-presidente da Câmara de Beja, disse ao PÚBLICO que os números “são surpreendentes”. (…)

CARLOS DIAS, Público, 17 de Abril de 2017


Prudêncio Canhoto concedeu entrevista à Rádio Campanário (27 abril 2017), sobre a realidade vivida pela comunidade cigana no concelho de Beja:

(…) Os dados oficialmente divulgados pela Segurança Social, através do ACM, não estavam, no seu parecer, corretos. Procedeu então à realização de “um levantamento do concelho de Beja, para ver quantos ciganos havia”, deparando-se com 1106 indivíduos de etnia cigana, distribuídos por cerca de 5 acampamentos, ao invés dos 650 indivíduos contabilizados nos estudos.

Ambiciona expandir o seu estudo, quando tiver possibilidade para tal, a todo o distrito de Beja e a toda a região alentejana.

Verificando bastante discriminação para com a sua comunidade, Prudêncio Canhoto, lamenta que haja “muita pessoa que fala da comunidade cigana sem ter noção”.

Declara que existem vários membros da sua comunidade “a viver em péssimas condições”.

Os bairros sociais cedidos pelo município de Beja, encontram-se esgotados na sua totalidade, havendo cerca de 350 pessoas distribuídas pelas 50 casas disponibilizadas.

A criação destes bairros, gera também um certo nível de discriminação, ao concentrar toda a comunidade cigana no mesmo local, e afastada da população em geral, considera.

“Muitas vezes vão à procura de arrendamento, e por serem ciganos”, não o conseguem obter, vendo-se obrigados à construção de acampamentos.

“Fui dar com acampamentos, onde há pessoas que têm filhos à escola, e não têm pinga de água” em casa, para beber ou para a higiene, encontrando-a apenas a cerca de 3 kms de distância.

Lamentando o facto de as pessoas que não o conhecem não lhe darem valor, simplesmente devido à sua etnia, confessa que “não é fácil ser cigano”.

A generalização e o preconceito, considera, estão na origem desta discriminação. “O grande problema é porem tudo no mesmo saco, porque dentro da comunidade cigana há de tudo um pouco”, há quem faça o mal, mas também existe quem faça o bem.

Confessando que “às vezes até dá vontade de desistir”, o Mediador Municipal de Beja da AMEC, convida as pessoas a ir ao terreno, conhecer as pessoas e a sua realidade, revelando que existem, “neste momento, pessoas da nossa comunidade que passam fome”.

Contudo, ao nível da escolaridade, no concelho de Beja, têm-se vindo a registar mudanças positivas.

Enquanto há cinco anos, ninguém na comunidade cigana tinha o 9º ano de escolaridade. Existem agora cerca de 15 adolescentes ciganos a concluir o 9º ano, existem cerca de 10 adolescentes de etnia cigana com o 12º ano, e outros tantos a concluí-lo.

Estas mudanças chegaram ao nível cultural, com as raparigas a prosseguirem os estudos após o casamento, quando antigamente abandonavam os estudos antes de chegarem ao 9º ano.

Nesta área sim, Prudêncio Canhoto pode afirmar que, “as coisas estão a melhorar um pouco”.

Após concluírem os estudos, contudo, os jovens adultos de etnia cigana vêm-se confinados a uma sucessão de cursos do Estado, devido à discriminação sentida também ao nível da empregabilidade.

Prudêncio Canhoto conta que os membros da comunidade cigana “vão à procura de trabalho, e ninguém lhes dá trabalho por serem ciganos, isto é grave”. Os órgãos municipais apresentam-se, como as únicas entidades empregadoras dos membros da comunidade cigana.

Realça a urgência de se insurgir alguém que diga “nós vamos ajudar esta comunidade, porque esta comunidade precisa de ser ajudada. Vamos lá dar-lhe aqui algumas garantias para que assim possa haver mudança”.

Apesar de haver um consenso geral de que a população cigana vive bem, e acomodada com os apoios do Estado, querendo apenas direitos e ignorando os deveres, Prudêncio Canhoto defende que, “havendo oportunidade, eles querem mudar”.

Estudos feitos no início da década de 90, contabilizaram quase 500 famílias de etnia cigana a residir no Alentejo, sendo que aproximadamente 2500 indivíduos ciganos foram registados no distrito de Beja, mais de 1500 no distrito de Portalegre, e perto de 1400 no distrito de Évora.

Depois das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, o Alentejo é a zona do país onde existe maior percentagem de população cigana, entre a população total. (…)

Depois de séculos de tentativas, por parte dos povos residentes, de expulsar as comunidades ciganas dos seus territórios, estas são agora direcionadas para a integração das mesmas, tendo-se vindo a registar mudanças sociais e comportamentais dos dois lados da história. (…)

A sociedade encontra-se, contudo, muito longe da integração total da comunidade cigana na sua população geral, “para que assim possa haver aqui um pé de igualdade”, como objetiva a Associação de Mediadores Ciganos de Portugal.

 


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